quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aviso aos navegantes!!!

Este é um blog especial. Tem começo e fim.

Nos posts estão transcritas minhas anotações das aulas da Oficina Básica de Teatro e Dança, ministrada por Francisco Augusto Pontes, conhecido por Chico Pontes e Augusto Pontes, ligado ao chamado Pessoal do Ceará que desembarcou, na década de 70 em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, e do qual fazem parte Belchior, Fagner, Petrúcio Maia, entre outros.

O interessante é ler o blog de baixo para cima. Ou melhor, do primeiro para o último post. Ainda juntarei todos em um só para facilitar a leitura, a reflexo e até mesmo o debate.

Resolvi publicar, por meio deste blog, minhas anotações porque eram importantes demais para ficarem engavetadas. As opiniões, procupações e devaneios de Chico podem ser lidas no presente. São atuais. O tempo tornou-as ainda melhores.

Abraço a todos que se debruçarem sobre essas anotações e se animarem a registrar algum comentário. O espaço está aberto e é infinito.

Chico faleceu em Fortaleza, na sexta-feira, 16 de maio de 2009, aos 73 anos.

domingo, 23 de novembro de 2008

Anotações 07 - O aplauso desmancha a tensão provocada pela peça...


Botei aqui, em 14 minutos marcados, o que eu penso sobre ensaio e apresentação. Quando defendo a apresentação única, não tô dizendo que não se deve repetir o processo de fazer. Mas que lição a gente tirou?



  • A gente pode tentar fazer e se fez.

  • O ato de ensaiar é como aquecimento. Não quer dizer que se vá jogar assim.

  • A apresentação nunca é a mesma mas as pessoas fingem ser. As pessoas riem, ficam raivosas ou sérias porque notam o que se espera delas.

  • As coisas mudam naturalmente e não devemos nos assustar com as mudanças.

  • Não se assustar se um dia o público ri numa determinada cena, e noutro dia não. Os atores levam a família pra bater palma pra eles. Então não é preciso fazer nada. É só esperar pelas palmas. O aplauso desmancha a tensão provocada pela peça, o instante mágico em que se separa a peça da vida.

  • Não havendo o aplauso, a energia não se dilui na vida, sobe para a consciência. Mas os atores não deixam fazer. E isso é uma verdadeira intervenção federal. Depois falam da censura. Os meus espetáculos são claramente uma procura.

Anotações 6 - Avisar pelo jornal que se vai fazer a Nau Catarineta, os interessados que se apresentem...

Chico:

Minhas idéias de teatro são pobríssimas. Um prédio. Uma peça. Quero me associar às pessoas que querem fazer.

Tenho uma idéia vaga do cenário: Uma corda, um cabo grosso que saísse do teto, do infinito e se desmanchasse num rolo. Uns barris. Um ambiente sombrio, mas preciso. Dar uma idéia de navio e também uma de interior. Penso também em outros elementos: Escrever no chão do galpão, fazer umas aparições. Fazer um espetáculo parado.


  • Sistema de iluminação: No sentido de se dar um certo balanço de Nau. Grupo de holofotes apagando-se alternadamente nas laterais. Os do meio ficando sempre acesos.

  • A partir das pessoas que se reunissem para fazer essa peça, pensaríamos na possibilidade de se fazer uma entidade (a Cooperarte).

  • Para fazer os 3 médicos, ensaiaríamos primeiro, diversas situações sem o texto, com a finalidade precisa de se saber uma coleção de gestos a serem depois usados com o texto: a barbearia, o padre.

  • Como continuar? Para os próximos cursos: Monitor, Bolsa de trabalho, Estágio.

  • Quero montar a Nau Catarineta, do Altimar Pimentel. É uma esperança. A peça é um auto-de-espera. O Alexandre, o Dod, eu Chico, o Altimar se reúnem inicialmente. Depois avisam pelo jornal e todas pessoas que se interessem pela idéia se apresentam.

  • Quem se emocionar com a possibilidade de apresentar uma peça pulsante, bonita, se apresenta e depois continua. Estou encantado com a possibilidade de se fazer um espetáculo bonito.

Anotações 05 - Colocar em cena o livro do qual a peça foi erguida...

Antes da apresentação dos 3 médicos

Chico:
É o seguinte, o André atrapalhou a peça dura muito tempo. Agora é a Ana. Há também os que não aparecem. Esses não se comprometem.
Precisamos liberar o texto. Liberar o espetáculo.
É preciso colocar em cena o livro do qual a peça foi erguida. É preciso a presença de alguém lendo. Quem lê está fazendo a celebração do espetáculo. O livro do qual a peça foi erguida...
- É um livro?
Chico:
Você duvida? Duvida que é letra de livro?
-
É de máquina.
Chico:
Veja então as páginas numeradas.
- Pode ser uma revista.
Chico:
Você já viu uma revista de 250 páginas?
- Já.
Chico: Revista médica, científica?
-
Catálogo.
Chico: E você já viu uma peça num catálogo?
-
Não.
Chico:
Então não há dúvida. Essa peça tá num livro.
- Quem lê não representa?
Chico:
Representa. Representa o papel de ler. Uma idéia: Podemos ser cartazes vivos. Mas não sejamos a grama. Nem atrapalhamos a ordem. As iniciativas que tomamos devem combinar coletivamente. Fazer a peça com os atores carregando e descarregando um caminhão de coca-cola. Moral: Enquanto vocês trocam frases de emoção a Coca-Cola faz distribuição.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Anotaçãoes 4 - Inventar o gesto e, depois, dar o sentido

Segundo semestre de 1976
Texto sem marcação de dia e mês

Precisamos passar a descobrir os gestos escondidos. Eles são mais ricos, mais precisos. Descobrimos e incorporamos. Estou muito alucinado?

O que temos feito é inventar o gesto, e depois querer dar o sentido. Então, qualquer gesto regula as frases da vida. Mas o caminho é descobrir os gestos que já tem sentido e usá-los.

Ser Sepulto - A única marcação era os atores conversando com a platéia.

  • Vou confessar: Só vou conseguir fazer teatro do jeito que estou pensando se conseguir a credibilidade de vocês. Tenho umas crendices contra as quais vocês lutam: ler a cultura brasileira; os costumes; as tigelas...

    As inconsciências para mim, eu vejo na cara. Aí eu vou e destruo. Isto aqui é uma cartase para mim. Senão eu morro. Preciso disso.
    A apresentação/ensaio que fizemos dos 3 médicos representou uma vergonha para a casa. O que a gente faz para acalmar isso?
    O vice-reitor viu. E ficou legalizado. Se se está inocente.
    Não pode continuar assim, esses pássaros inocentes. É preciso sujar as asas. O convite aí fora é o da ordem, da clareza. Nas para existir essa ordem é preciso que ela seja perturbada para ser novamente restaurada. Quando as coisas estão congelando têm que assustar. As lições que tiramos da apresentação que fizemos:
  • Podemos fazer teatro.
  • Só se soube que fez teatro depois da apresentação.
  • O que diferencia o ensaio do espetáculo é a presença do público.
  • Ficou bem claro que o público dirige o espetáculo.
  • Durante todo o tempo passamos teimando com as coisas que fazíam.
  • Partimos de uma idéia arbitrária: Decorar o texto. Depois passamos a ser mais espontâneos.

    Coisas que podemos pensar para o curso do próximo semestre
  • Monitoria, bolsa de trabalho, estágio.

Para agora:

  • Formar um grupo para montar Nau Catarineta. Peça cantada na base de coros. Quero fazer um espetáculo bonito. Inquebrável. Mas transparente, como se fosse de vidro. A estrutura do galpão se presta a dar idéia de uma Nau. O teatro escuro, só uma réstia de luz. Transar uma de cheiros, incensos. Um espetáculo: Azul/Matreiro /Que dê calafrio /Pausado
  • Fazer uma coisa diferente das irresponsabilidades que existem por aí. Fazer com trabalho. Quero fazer também uma ópera nordestina. Mas isso é outra conversa.

Anotações 3 - Aconteceu e o incessante continua...

Segundo semestre de 1976
Texto sem marcação de dia e mês

Chico - Alguem já disse: Não sou teórico das coisas que eu faço. Minha teoria é não ter teoria. Sou uma ordenada, sistemática, racional. As coisas mudam quando eu aqui chego, e mudam também pra obra da minha ausência.

  • Havia, há aqui, um convite para se fazer as coisas sem pensar. Ninguém ta disposto a conversar.
  • O discurso agora é violento, imposto. Há o abandono da persuasão. Não há também vontade de cooperação.
  • A gente passa a vida toda elogiando nos bons jogadores, mas eu também sou um bom jogador. Bons jogadores quando atuam são capazes de mudar as coisas positivamente. Porque as mudanças que ocorrem quando eu chego têm que ser necessariamente negativas?
  • A peça aconteceu. Aconteceu no meio de outras. E o incessante continua. Não sei o que é estar consciente, o que é inconsciente. O que eu vejo: A história, a ciência me diz, que há coisas que acontecem no estado de consciência e outras num estado de prontidão para as coisas.

Gustavo dá uma gargalhada

Chico - Quando não gosto, gozo, brinco, depredo. Eu queria escandalizar um pouco mais. Eu realmente sou inteligente, pessoa de qualidades excepcionais. Meus palpites não são aceitos. Os palpites de Rui Guerra são aceitos, e é uma pessoa menor que eu. Sou humilde, simples. E acho a modéstia uma doença. Sou uma personalidade asfixiante até certo ponto.
Já fiz vários testes, eu sou uma personalidade excepcional. Sou um indivíduo extremamente crítico. Muitas coisas que eu tento fazer, não consigo. Há uma intranqüilidade para se dar opiniões. Tenho uma solidão horrível para se conversar. Acho o Daniel excepcional. Às vezes tenho inveja da inteligência dele. A inteligência tá no rol das coisas observadas. Aqui, nunca minha opinião venceu. Elas foram derrotadas. Por outras opiniões.

  • Para Lenine, a prática é o critério geral da verdade. Quando eu digo isso, estou pensando no caminho percorrido por ele para concluir isso. Lenine ta dizendo com isso: Agora viva. Ele trabalhava pensando. Gostava de pensar.
  • O que é a inteligência? É trabalhar no mundo. É se transformar.
  • Falar sobre teatro a partir das inexperiências mesmas. Subterfúgio em teatro (uma ação para si só ou para os expectadores): Coincide com as coisas que eu não consegui dizer.
  • O teatro vai provar que é bom não aos expectadores, mas na cultura onde foi realizado, celebrado.
  • A falta de teatro vai despreparando as pessoas para o teatro. Teatro é uma coisa reconhecida como teatro. O teatro grego, eu confio, está depositado no nosso teatro.
  • Faço teatro para mim e os outros são os meus semelhantes. Fazer uma coisa como se fosse para mim, julgando que esse é o melhor modo de fazer para os outros. Aprender fazer fazendo.

Anotações 2 - Trabalhar com muitas idéias ao mesmo tempo...

Segundo semestre de 1976
Texto sem marcação de dia e mês

Objeto
Muitas opiniões.
Depois a escolha.

  • Inevitavelmente temos muitas opiniões sobre uma mesma coisa. Mas desgraçadamente temos que sempre escolher uma única e seguir o caminho. Por isso as pessoas se casam, não é?!
  • Se numa mesma casa vemos duas geladeiras, primeiro perguntamos por quê? Depois, qual a melhor?
  • Por que não trabalhamos com muitas idéias ao mesmo tempo? Com vários objetivos?
  • Por que nos proibir isso?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Anotações 1 - Em quantos dias se coloca uma peça de pé?

Segundo semestre de 1976
Texto sem marcação de dia e mês

Chico -
Vamos conversar? Mas conversar para tomar consciência. Isso é incômodo, eu sei. Este é um curso que deve fazer umas transformações em nós. Estabelecer certas perspectivas.

Carlos - Tenho impressão de que o tempo está ficando pouco para o que queremos fazer.

Chico - Eu monto Shakespeare em 26 dias.

Antônio - Eu acho que temos tempo que dá.

Chico - Temos curtido um pouco a coleção infinita de sugestões que somos capazes de dar. Podemos agora congelar um pouco tudo isso.

Carlos - Eu tenho uns conceitos que...

Chico Devemos abandonar estes conceitos que atrapalham a gente. A quem interessa que seja difícil apresentar uma peça? A mim particularmente, me interessa que seja fácil, que se rompa a inércia. A quem interessou não termos sido capazes de apresentar a peça infantil, os 3 médicos? A quem interessou? Eu tô afim de acabar com essa farsa. Provamos que não faríamos as peças. Fizemos uma greve. E como a greve é uma coisa abusada, eu aprovo.
Para o dia 26 se eu quiser eu faço: A peça infantil, Os 3 médicos, um musical.
Eu quero entrar nesse arraial onde se faz a arte brasileira. Quero ser operário nessa construção. O engano está sendo fabricado. Por que não fazemos este teatro de assalto?
Vocês não fizeram ainda nenhum exercício que os comovessem a ponto de alterar o próprio modo de vida. Eu fiz o Ser Sepulto, e isso não é uma coisa trivial.
Para montar a peça temos que combinar umas regras. E perguntar se algum ponto da peça ficou ressaltado.
Nessa peça nós destacamos a frase:
O ASSASSINATO TAMBÉM TEM LIMITES E NO ENTANTO TODOS OS DIAS ASSASSINAM-SE HOMENS”.
Ouvindo essa frase as pessoas lembram-se do padre que foi assassinado (Burneer), e isso é dar uma interpretação ao texto.
Tem muita imoralidade também pra ser detectada. É imoralidade o que tá fora da moral vigente. Fora da cartilha do viver. A vida taí andando. E a gente não pode demorar tanto pra fazer as coisas. No dia que JK morreu eu ensaiava o Ser Sepulto. Mas quando a peça foi apresentada já fazia tempo que JK tinha morrido. E o pessoal ao assistir a peça tava lembrando era de outra morte, a do padre lá de Mato Grosso.
Então, por que não fazemos uma apresentação dos 3 médicos, no dia 13, último dia da Expoarte?
A gente explica pro pessoal que não é uma peça acabada. É como se fosse um ensaio com o público. Vamos ouvir as pessoas que têm resistência a essas idéias.

Carlos - Não gosto da idéia de apresentar na Expoarte. Não to afim de assumir isso.
Chico: Outras resistências e sobre, por exemplo, ter o texto da peça presente em cena:
  • Acho que vai perder o ritmo visual.
  • Prejudica a ilusão que o teatro provoca o público.
  • Perde o caráter do teatro.
  • Perde a vibração.
  • É chato.
  • Tenho dúvida se um ator pode ler e representar ao mesmo tempo.
  • Acho que poder pode, mas é difícil.
  • Acho que todo mundo pode, marcando um prazo, trazer o texto decorado.
Tenho que reconhecer que levo mais jeito de diretor que vocês todos juntos. Tenho crises de idéias. Também quero dizer que trabalhar coletivamente é apenas uma forma de se trabalhar.
É preciso não esquecer também de, ao se ler a peça, pensar em missas, corais, canto lírico, orquestras, bandas desfilando, procissões, testamentos de Judas, leilões.
As palavras da peça não são entendidas de imediato. Vamos romper um acordo instituídos na arte, o de que se deve saber o texto decorado.
Uma sugestão: Quem lê não contracena. A peça se passa então, em dois níveis: o da leitura e o da representação. Isso é uma coisa norueguesa quase. Escocesa de tão bonita. Distante. Se a gente coloca distante de nós acha bonito, não é?

Carlos - Continuo contra a idéia de se ler o texto em cena.
Chico - Você continua porque tem o coração mais duro que o chão que você pisa. Uma peça de teatro quer seja visível ou não, tem sempre um livro em cena que está sendo lido. Imaginem: A cena escura. Apenas uma vela, uma lanterna, nas mãos da pessoa que diz: Os assassinatos também têm limites... e ela ou outra pessoa passa a lanterna nas pessoas que estão na platéia. Penso numas ligaduras para cada início de cena, como em TV. E também num jogo de futebol em BG, durante toda a peça. Ter um cenário que deixa uma vastidão de espaço, de abismo. A cena se passa num canto e fica um palco inútil.

Um desafio: Tentar ganhar sem prometer apenas. Pegar as energias que se tem a transformar as coisas no tom que se quer. Você ganha amizade só se prometendo pra amizade. Se você fantasia a amizade, você está alterando o texto da amizade. Extrair o que permanece de atuar no texto. E não injetar coisas, tentando dar colorido por não acreditar que alguma coisa do texto permaneça. Ver o que atravessou estes 140 anos, e permanecer vivo. Como esta frase: Os assassinatos também têm limite...
Procedimento de pensar: Em vez de aplicar coisas na peça, ver as coisas que vem de dentro da peça. Tecer o abismo, não geograficamente mas com o tom de voz.
As roupas: Não devem alterar muito como a gente está agora, porque desde que a peça foi escrita não se alterou muito o nosso jeito de ser.
O cenário: Não é composto de coisas reais, mas de pontos de vista. Não é uma coisa, mas uma aparência.

À procura do ritmo...

Texto sem marcação de dia e mês
Segundo semestre de 1976

Chico,

As pessoas estão acostumadas ao atropelo. A fazer tudo certinho e depressa pra não perder tempo. Dão um ritmo à vida que não é o da vida. Riem só um pouquinho, ficam logo sérios. Depois duma frase, duma fala não pode haver o silêncio, tem que haver outra fala, uma enxurrada. Até pela pessoa que se ama, choram só um pouquinho, é bom que nos recuperemos logo.
Penso que podemos fazer os 3 médicos num ritmo (o da vida) ou num outro (o que as pessoas emprestam à vida).
Se fizermos no ritmo da vida, será um teatro que pode ser pausado. As pessoas riem e a risada fica ainda um pouquinho no ar, como um eco. Se fazem um gesto, o gesto deve existir o tempo necessário pras pessoas registrá-lo, fotografá-lo.
Nada do que acontecer na peça, deve ou pode passar despercebido das pessoas que a assistem, a não ser que esta seja nossa intenção.
Clara Lúcia
Texto sem data

Enxergar melhor só com a lembrança de que um dia houve mais luz.

Segundo semestre de 1976
Texto sem marcação de dia e mês

Chico na janela do apartamento do Dod:


Aquela escola ali é tão feia, a coisa mais feia do mundo. E aquele gramado – uma faixa de grama outra calçada. Um de grama, uma de calçada. Parece o bem e o mal. Os meninos maus são os que pisam na grama.
Sou contra isso, clara. Sou contra universidade, contra família, contra pai. Sou contra as pessoas se reunirem pra esquecer os próprios pecados. Sou contra essa preocupação atual de se fugir do pecado. Hoje o pecado não é pecar, é a preocupação incessante de se fugir do pecado.
Acredito que há pessoas que a função delas é ser velas. Se queimar, iluminando outras pessoas. E ninguém percebe isso, só quando a vela se acaba. Aí alguém diz: parece que tava mais clarinho aqui, antes tava se enxergando melhor... e recomeçam a enxergar melhor só com a lembrança de que um dia houve mais luz.

Sem anotação de data

As dificuldades do fazer existem. Mas existem também as facilidades.Vamos nos guiar pelas facilidades...

Segunda-feira, 01/11/1976

Carlos - Vamos aproveitar que o Chico ainda não veio e conversar pra saber como todo mundo aqui ta vendo os 3 médicos. Vamos conversar, discutir sem a presença do Chico Pontes...

Clara - Duvido que a gente consiga isso.

Carlos - Duvida o que?

Clara - Discutir sem a presença do Chico.

Carlos - Eu consigo e muito, não tenho culpa se você não consegue.

Clara - Você ta muito apressando em dizer as coisas. E me responde pensando que entendeu o que eu disse.

Carlos - O que você quis dizer?

Clara - Que a gente não consegue discutir sem a presença do Chico. Prova disso é que você convidou todo mundo a conversar sem a presença dele. Ele não tava presente, mas você colocou ele num canto. Então ele tava presente.

Carlos - Vamos conversar?

Clara - Vou anotar essa nossa conversa.

Carlos - Esse negócio de anotar conversa parece coisa da Polícia Federal.

Gustavo - Coisa dos homens.

Clara - Por falar nisso Carlos, é bom você ter cuidado. Tenho um depoimento meu todinho anotado aqui no meu caderno.

Carlos - Eu acho que os atores, acho que nós, principalmente o Augusto, não tamos conseguindo fazer um personagem. Tamos sendo muito nós mesmos.

Clara - Acho que se a gente se preocupar muito em fazer um personagem, se preocupar muito em ser diferente de nós mesmos vamos nos atrapalhar. Não vejo mal do personagem se parecer com a gente mesmo. Acho que a gente pode misturar as coisas. Não se preocupar em se desligar completamente do que nós somos e ser só o personagem. Primeiro porque é muito difícil. Acho que pelos menos no início isto é muito difícil.

Carlos - Acho que isso que você falou é um erro primário em teatro: escolher um ator porque ele se parece com o personagem.

Gustavo - Quando eu tô fazendo o Lino eu lembro daquele teatro de Pirenópolis que o Chico falou. Então eu tô fazendo como num teatro de Pirenópolis.

Clara - Eu acho que o Gustavo se parece com Pirenópolis.

Antônio - O Lino é um personagem muito importante na peça. Ele é o apresentador dos personagens. Deve aparecer em cena como se esperasse convidados.

Márcia - Eu tô querendo saber mais sobre os tipos dos 3 médicos. Tô notando que o Arão quer fazer o Cautério um tipo assim sério, cheio de maneiras. Mas ele começa fazer assim depois se esquece de continuar.

Antônio - É que o Cautério representa ele mesmo um tipo. Como nem toda hora ele consegue ser serião, ele às vezes derrapa. Na verdade ele não é o que quer parecer ser, por isso às vezes ele não consegue continuar fazendo um gênero o tempo todo.

Carlos - O João me disse que tava com dificuldades de fazer a cena com o Gustavo porque o Gustavo não ajuda. Não olha pra ele, não presta atenção no que ele fala.

Clara - Acho que isso não pode estar prejudicando o João porque nesta cena provavelmente o Antônio estará lendo o texto e não vai desgrudar o olho do papel. O João tem que aprender a se virar sozinho. O Gustavo vai estar lá e não vai ao mesmo tempo porque ficará lendo.

Antônio - Agora não tô entendendo a da Ana. Aqui com a gente ela é toda extrovertida, abraça, beija todo mundo e lá na hora de fazer a cena com o Carlos fica toda encabulada.

Márcia - A Ana não tá conseguindo levar a extroversão dela pro palco. Ana, você é extrovertida com seus namorados?

Ana - Eu não tô vendo esse problema aí que vocês tão vendo. Acho que não tô conseguindo fazer direito a Rosinha porque eu não sei as falas dela de cor e nem como ela deve se comportar. Não sei se devo fazer ela alegre, expansiva ou quietinha.

Antônio - Acho que vocês devem fazer essa cena do Miléssimo e Rosinha em câmara lenta. Muitas vezes. Pra ficar os gestos e poder repetir.

Carlos - Quem deve cuidar dos gestos é também o Gustavo. Toda vez que ele fala vai ficando... Vai ficando... Na ponta dos pés. Acho que ele tem que acabar com isso.

Daniel - Acho não. Isso é legal.
(Daniel vai embora).

Márcia - Acho que o Luis tá fazendo, tá falando muito preocupado com as pessoas que estão assistindo.

Felipe - É que eu fico um pouco nervoso, preocupado.

André - Tem que se esquecer que as pessoas que tão assistindo existem.

Clara - Não acho isso não.

Carlos - Tem que se desligar das pessoas em volta como o Grotowiski fala.
(O Chico chega)

Márcia - Felipe acho que muita coisa se resolveria se você fosse capaz de dizer uns três palavrões pra nós aqui quando tivesse raiva.

Chico - Parece engraçado mas a Márcia tem razão. Temos que ter um modo de encarar a vida e despejar isso no texto. Se a gente não tem coragem de na vida dizer um palavrão, não temos também de dizer quando fazemos teatro. Por isso quando o Miguel (Felipe) xinga o Lino, não convence.

Felipe - (diz um palavrão)

Chico - Assim baixinho não vale. Tem que ser igual o Arão que me xingou de facista e sacana bem alto e tudo ficou por isso mesmo.

André - Em vez de palavrões as pessoas podiam se xingar na peça usando nomes de doenças.

Felipe - Acho que com o tempo eu vou superar isso.

Chico - Assim falando desse jeito não vai conseguir não. Tá parecendo linguagem de memorando com data-vênia e tudo. Tenho umas coisas aqui anotadas, umas preocupações minhas que vou ler pra vocês:
  • Devemos ter cuidado com a pronúncia das palavras. A pronúncia ta muito falsa. As pessoas que assistem não está entendendo o que se está dizendo.
  • Não podemos atropelar as falas uns dos outros. Precisam deixar as falar repousarem, agirem. Quando fizermos a recuperação de uma fala, essa recuperação deve ser feita com um propósito.
  • Deve haver uma pessoa lendo o texto todo o tempo.
  • Assimilar o gesto um dos outros. Ficar numa do personagem em cena deixar uns vazios, uns abismos, sensação grega, vai lá grego-romana. Ter noção do território do palco. Da gravitação.
  • Preocupação: A quem vai dizer as falas? A outro ator? Às pessoas da platéia?
  • A intenção de cada frase. Onde começa a intenção e onde ela termina. Há uma intenção geral: Ela é clara, só não é claro o que você diz e há várias sub-intenções.
  • Misturar a vida com o teatro pra poder depois fazer as distinções. Misturar um pouco a nossa vida com o que vamos fazer e depois separar. O teatro tem uma função: a da gente rever as coisas , aliás é pra isso que o teatro foi feito. Por isso algumas intimidades não nos deve intimidar, tô referindo aqui à cena da Rosinha e Miléssimo.
  • Acho que a gente ta fazendo coisas só na base da simpatia. Sejamos francos quem aqui faria o General Franco? Ou Silvério dos Reis? Quem teria coragem de arranjar gestos pra fazer um pústula? E fazer bem, sem ser caricato, sem gozação? É preciso consciência pra poder separar as coisas, fazer bem o Silvério dos Reis: Se você tiverrejeições a umas práticas e se você não tiver consciência dessas rejeições não vai fazer determinados personagens, não dançará capoeira, não fará muitas outras coisas.
  • Como observador notei que o nosso processo está sendo visitado por essas dificuldades. Estamos confundindo teatro com a vida .Estamos encabulados de ser os personagens que devemos ser. Queremos fazer um personagem simpático, que podemos entrar com ele em casa
  • No momento somos umas pessoas um pouco artistas transfiguradoras. Vamos assumir esta posição.
  • Os artistas vivem e representam a vida. (Há uma separação). Está um pouco confuso em nós: O que é teatro e o que não é teatro. O que somos e o que não somos.
  • Na cena da Rosinha e do Miléssimo precisamos descobrir qual é a da cena pra poder sustentar o equívoco. Quando a Rosinha arrasta Miléssimo (imprensa e mostra uma situação que é eterna). Uma situação que tá contada nas músicas populares. Ouvir Chico Buarque, Caetano Veloso. Tá contada nos romances. Nas gravuras. Ta tudo aí. A gente inventa, inventa e vai ver tudo já ta contado. Precisamos fazer o ápice desta questão.
  • As dificuldades do fazer existem. Mas existem também as facilidades, Vamos nos guiar pelas facilidades.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Que as pessoas brincassem e vissem a face delas brincando...

Domingo, 31/10/76

Transcrição da fita apresentada em aula no dia.

Chico: Eutinha pensado em programar essas coisas. Quer dizer, de organizar o curso de uma forma que ela resolvesse uma série de coisas que eu pensava sobre teatro. Então, eu aceitei fazer esse curso assim sem muito tempo de planejá-lo, mesmo porque eu não acredito que a gente faça um planejamento anterior nessas coisas e tente realizar de acordo com o planejamento.

Ao planejar o curso pensei aproveitar uma certa um certo número de idéias que eu tinha sobre teatro e tenho, pelo fato de conviver com essa coisa e de tentar fazer e de não conseguir me afastar muito disso. Eu estou envolvido com o processo de teatro. Então, a idéia do curso é uma Oficina Básica de Teatro e Dança. Se fosse um curso seria de Licenciatura em Desenho e Arte Plástica ou de educação Artística. Quer dizer então, o curso tem um compromisso com a cultura brasileira, já que tem um compromisso com a educação esse outro compromisso também fica mais reforçado.

A idéia que eu tinha, que eu tenho, que me animou pra fazer esse curso era que: acho que o Teatro Brasileiro não tem qualquer coisa que pudesse se chamar de vocabulário gestual. Quer dizer, o jogo das marcações, o jogo da dança no teatro, o jogo da verticalização, toda verticalização, toda aquela parte do teatro que é após o texto, ela é muito apreendida em práticas internacionais, métodos e técnicas de teatro que de uma forma ou de outra chegaram aqui e que são importadas: Qualquer coisa do teatro francês, do teatro alemão, do teatro inglês, do teatro americano. É qualquer coisa de Stanilawiski, de Grotowiski, de Brecht e arremedos dessas coisas. Então é uma preocupação com o fantasiar a voz, por exemplo. A voz, então, tem aquelas coisas de califasia, de caliritmia, de entonação, de impostação. Quer dizer, a alteração do jeito de falar começa por aí. Também as posturas, aquele negócio de ter noção do meio do palca, da direita baixa, centro, essas coisas... Uma certa gravitação no palco que não é extraída da vida brasileira, mas aproveitamento de desenhos surgidos em outras culturas. Quer dizer, desenhos de marcações de outras culturas, que atendem a outros interesses, que atendem a outras técnicas, que atende a outros fazeres artísticos.

O teatro brasileiro me pareceu sempre, nesse processo de verticalização, um aimitação dos processos de fazer teatro em outros locais. Isso, sem dúvida, serviu muito aqui no sentido de ter possibilitado a existência de espetáculos de teatro, a criação de atores, a formação de público. Mas , ao mesmo tempo que isso foi criado, foi criado distante das raízes nacionais, das raízes brasileiras.

Acho que o povo brasileiro não se vê no teatro brasileiro. Isso é uma idéia geral assim que eu tenho. E que, aqui, não tô conseguindo dizer claramente porque essas coisas não estão claras na minha cabeça. É só um mal estar que eu tenho quanto a essa parte. Outra coisa é também os textos. Essa dramaturgia, por conseqüência , todos esses textos existentes são feitos em gabinetes isoladamente. Indivíduos que criaram peças, tramas, desligadas da realidade brasileira, desligadas dos problemas brasileiros, da cultura brasileira, desliagadas do cancioneiro brasileiro, desligadas do romanceiro nacional. São tramas e peças, enredos, argumentos que são importados também. São uma caixa de efeito.

O que a gente pode dizer é que o teatro brasileiro é uma caixa de efeitos, uma caixa de segredos, uma carpintaria de prender a atenção. Isso também está nos cenários. Tá na própria forma do teatro. Nós temos palcos italianos, essa coisa toda. Acho que outros setores da arte, outros modos de fazer artísticos estão um pouco mais nacionais, um pouco mais brasileiros. São um pouco mais espelhos da nossa realidade. São objetos realmente da decifração da nossa realidade, da transformação da nossa realidade. São momentos em que há um convite pra alma brasileira se reconhecer diante da arte brasileira. Acho que o teatro é uma coisa distante desse aspecto aí.

São essas as inquietações que eu tenho e que (explicam porque) aceitei fazer o curso... Pensei que podia se aproximar o teatro brasileiro por exemplo do futebol. Quer dizer, a dança do futebol, daquele jogo de participação que há, daquela cooperatividade, associatividade que há no jogo de futebol, ao mesmo tempo que há uma certa disputa, jogos de malícia. Uma coisa decidida na hora. Um um certo improviso de ações. Um certo comungar sem combinar. Quer dizer, uma coisa decidida com olhos. Isso o nosso teatro não tem. Isso o futebol tem e é uma prática brasileira, é um modo brasileiro e há uma malícia, uma malandragem. Então, essa aproximação, eu acho que ela é importante para, para o teatro brasileiro. E está longe essa coisa de qualquer autor brasileiro ter comentado isso alguma vez, de algum teórico brasileiro ter dito isso , ter falado nisso, o que para mim é estranho.

E aí a gente pode ver também que o carnaval tem muita coisa a dar para nosso teatro. Tem outros momentos aí em que há realmente rituais, há cerimônias e há teatro. Esse teatro espontâneo não está no teatro brasileiro. Nem também esse mais elaborado: o folclore. Quer dizer, as festas populares. Essas multifacetas aí da cultura brasileira. O teatro tem uma visão opaca pra essas coisas. Então, eu pensei que as pessoas poderim brincar, um grupo de pessoas poderia brincar um certo, brincar um futebol, jogar um jogo de futebol. Elas fariam uma tremenda expressão corporal. Elas desenvolveriam um forte sentido de cooperativismo, de associatividade e naquele ambiente de futebol fariam surgir emoções reais em funções de coisas concretas em que não há interesses particulares, há um interesse geral.

As pessoas durante um jogo revelam, revelam muitos sentimentos, revelam muitas emoções. Simplesmente essas emoções aparecem pelo jogo e não há nenhum compromisso, nenhum interesse. Então, desligadas de compromissos, de interesses, as pessoas fazem brotar esses sentimentos, é uma criação coletiva realmente. Então, as pessoas interessadas em aproveitar isso, jogariam um futebol várias vezes e veriam que tipo de emoção, que tipo de associatividade, como é que elas se mostram ao jogar e recolhem essas emoções e poderiam com elas trabalhar, teatralizá-las, dramatizá-las, torná-las evidentes, fazer uma outra combinação com elas e tudo mais.

Tentar então, levar essas emoções e impostar-lhe um texto. Quer dizer, verticalizar um texto a partir dessas emoções brotadas num jogo, por exemplo, era a experiência que me alimentava aí, quando eu pensei em organizar essa Oficina de Teatro e Dança aqui na UNB. Mas isso não foi possível porque a época do ano é muito seca, um calor danado e então, a aula de quatro as seis não dava pra fazer. É um projeto demasiado arrojado pra um individuo levar à frente. Então, suprimi isso e fiz alguma coisa bem menor, mas dentro dessa direção: que as pessoas brincassem e extraíssem dessa brincadeira alguma... vissem a face delas brincando. A face delas num jogo. E recolhessem isso. Então, foi com essa idéia que fizemos um texto e montamos. Depois nós montamos um texto que tem, que guarda proximidade com o que foi feito ali, no espontâneo, no autêntico. E isso foi muito difícil de fazer porque ninguém tá acostumado a trabalhar desse modo. Mas é só uma dificuldade que quando a gente supera, resolve... E então?... Opa!...

Naturalmente, eu dei uma ancorada aqui no teatro brasileiro e deixei ver que há algumas exceções. Quer dizer, tem algumas peças vigorosas e tem algumas pessoas que tentam essa recuperação dos valores nacionais, da identificação do teatro com a arte brasileira. Mas são exceções. São coisas muito pequenas, não dá pra ver. Então completamente afogadas. Então quem ancora não dá pra ver isso.

Grudar a intenção na fala...

Sexta-feira, 29-10-76

Cena da Rosinha falando: Ela deve falar falsamente. Grudar a intenção nas falas.

Cena XIII: Aparece o Pelé.
Cena XIV: Aparece o Mequinho.
Cena XV: Aparece o Fittipalti. Por quê? Porque tratar doente com água é igual correr com o Copersucar.

Um ideal: Que as pessoas entendam as falas. Obedecer exatamente o que está no texto.

Expor o processo de fazer: Os atores de uma peça sabem a peça toda. O público sabe que os atores sabem. Não faz mal que um ator tropece e o outro o ajude. É interessante que em cada cena um dos personagens esteja com o texto na mão. A presença do texto, em cena, tranqüiliza e estabelece a verdade que é a de que os atores já sabem a peça.

Movimentar a cena: O gesto sai naturalmente. O difícil é você conter o gesto. Fazer a cena com outras pessoas. Uns assimilam os gestos dos outros, isto é entrar na que ele disse. Arranjar uma para poder responder. Estabelecer o intervalo entre as falas. Colocar uma intenção em cada fala. Comunicar ao público de uma maneira clara, a intenção de casa cena. Quando a gente não sabe a entonação não deve colocar nenhuma.

Se não tomarmos cuidado, os erros grudam na gente...

Quinta-feira, 28/10/1976

Ainda sem anotações encontradas...

Quarta-feira, 27/10/1976

Ainda sem anotações encontradas...

Terça-feira, 26/10/1976

Ainda sem anotações encontradas...

Segunda-feira, 25/10/1976

Não houve aula, nem ensaio...

Sexta-feira, 22/10/2006

Os atores preferiram assistir a um ensaio de um show musical.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Montar a peça como se fosse novela....

Quarta-feira, 20/10/1976

Informações para se contextualizar a peça:

  • Reminiscências das viagens e permanências de Daniel P. Kidder, o missionário metodista americano que viveu no Brasil de 1837 a 1840.

    Capítulo V
    Hospitais: (sustentados pelas irmandades).
  • Hospital de São Francisco de Paula
    Situado em local bem ventilado e é de ótima construção.
    Cada doente é acomodado em alcova separado onde recebe as visitas do médico e cuidados dos enfermeiros
    Amplos corredores circundam o prédio onde os doentes gozam ar puro e apreciam o magnífico panorama.
  • Hospital dos Lázaros – Fica em São Cristóvão a algumas milhas da cidade
    Recebe pessoas atacadas de elefantíase e outras moléstias da pele da mesma natureza que a lepra, enfermidades muito comuns no Rio. Houve alguém que pretendia ter descoberto que no Brasil, a elefantíase é a mesma moléstia que entre os gregos costumava ser curada com veneno de cascavel. Houve quem se submetesse à picada da cobra na esperança de se salvar, mas morreu.
  • Santa Casa da Misericórdia – Situado ao pé do Morro do Castelo
    · Tem as portas constantemente abertas aos enfermos e aflitos. A direção do hospital presta a mais eficiência assistência que pode, a todos indistintamente: homens e mulheres, pretos e brancos, mouros e cristãos.
    · Mais de cinco mil doentes são ali tratados. Mais de mil morrem.
    ·
    O prédio é antigo e mal construído.
  • Um novo hospital está em vias de ser construído. A primeira pedra foi lançada em julho de 1840.

Concepção teatral da época: os esquemas de apresentação são rígidos. Existem as cenas de preparação. São geralmente curtas e funcionam como elemento de ligação entre uma cena e outra.

Chico - Podemos montar a peça como se fosse novela. As cenas pequenas serão feitas como se anunciassem o próximo capítulo. O patrocinador da novela seria um remédio proibido. No outro intervalo vem a explicação que não se pode continuar com o mesmo patrocinador porque o remédio foi proibido.Como fazer estes anúncios? Falar com Climério, Lurdinha, Pedro Jorge. Podemos também fazer um noticiário sobre os remédios. Meu apelo: Vamos fazer uma coisa só pra chatear.

Antônio - Temos que discutir mais esse lance de se fazer a peça como uma novela.

Chico - Se discutir a gente não faz, fica com medo.

Antônio - Se antes de cada cena, houver outra anunciando a peça pode ficar monótona.

Chico - As cenas de TV seriam só as pequenas, as introdutórias de outras, as que já existem na peça. E também a da Rosinha falando... Uma boa maneira da gente não fazer a peça dum jeito monótono é não pensar que ela possa ficar monótona. Há também as peças chatas de propósito. O ser sepulto é uma peça chata de propósito.

Antônio! Você foi convidado pra jantar... Está com medo que a vida apodreça... Não acha mais sensato deixar para verficar na ocasião?

Gente, não vamos combater as idéias antes de ver elas realizadas.

Neste negócio de idéias tem duas posições. Não vamos ser falsos:

  • Uma, a gestação de idéias – isso só pode ser feita se expulsarmos a polícia que existe em nós.
  • A segunda, o desmanchar das idéias.

Por isso precisamos ter, expor nossas idéias. Depois a idéia melhor briga com outra. A idéia melhor desmancha a menos boa. Às vezes se dá o contrário. Então podemos lamentar o fato de não termos escolhido as melhores idéias.
Penso que a maior parte de nossas discussões que fazemos aqui falando podemos fazer de outro jeito: fazendo. Podemos aprontar cena por cena. Podemos escolher a cena que mais represente a idéia geral da peça e começa por ela.
O ser sepulto acomoda um pouco o que penso sobre teatro. Pra se fazer teatro é preciso se ter um bocado de idéias e confiar que outras pessoas dê outras idéias. Mas entre o pensar e o realizar existe um abismo muito grande. Há uma terrível sujeição.

  • O autor diz que a peça não devia ter começo e nem fim, mas a mãe da atriz acha que a peça deve ter fim.
  • Perdi muitas discussões. Muitas idéias minhas foram colocadas de lado. As alguns símbolos permaneceram: os atores colocados de costas uns para os outros; as falas distantes uma das outras; os atores se dirigindo à platéia

    (Mas o rapaz que entrega o jornal, era pra entrar numa motocicleta, fazendo um barulho imenso. Mas o rapaz entrou de bicicleta. Por timidez. Timidez fazendo de conta que é coragem).
  • Penso que teatro bem feito é aquele que consegue a participação da platéia, mesmo que essa participação seja sair do teatro.
  • O que as pessoas falam na peça O ser sepulto é aterrador. O que eu fiz também é aterrador: fiz os atores ficarem conversando com a eternidade.
  • Em qualquer pensão as pessoas estarão conversando aquelas conversas do dia-a-dia. São só umas falas.
  • Considero um elogio as pessoas dizerem que o texto é bestíssimo. Dizer isso é querer que o texto realmente exista. Que a peça tenha uma unidade dramática.
  • O problema é que a peça não ta realizada. Tem de se fazer 300 peças e todas parecidas. Daí então pode ser que saia umas.

Carlos: O teatro pode existir sem texto, sem música. Mas não pode existir sem público. Por isso não acho válido fazer uma coisa que chateie o público. Que afaste o público do teatro. Se a gente fizer assim tamos contribuindo pra elitizar ainda mais o teatro. Fazendo teatro só pra uma pequena classe.

Gustavo: Isso desestimula o público a ir ao teatro.

Pedro: Pra gente fazer essas idéias que o Chico propõe é necessário antes preparar o público. O público brasileiro, o público de Brasília não ta preparado pra receber esse tipo de teatro.

Chico: Quero saber quando é que se vai inaugurar essas preparação do público. Vamos ficar a vida toda, eternamente dizendo que o público não está preparado para essa ou aquela maneira de fazer teatro. Se a gente pensa assim, vamos ficar fazendo da mesma maneira, sempre. Quanto ao teatro ser elitizado, ele é, vai ser e não é culpa do teatro, mas da estratificação social. Se as pessoas não comem, não tem onde morar, como deselitizar o teatro? Acho ridículo se apresentar peças produzidas aqui em Brasília nas cidades satélites. Antes de ir se fazer teatro lá é preciso sanear aquelas cidades, botar água e esgoto. E depois, ao irmos apresentar este nosso teatro lá estaremos afogando as coisas espontâneas deles, o carnaval, a cachaça nos botecos, o futebol nas ruas.

Pedro: Você teria coragem de...

Chico: Por favor, não faça perguntas sobre minha coragem, eu não tenho nenhuma. Outra coisa que quero deixar clara: desconfio que sei fazer mas não se pode, não posso fazer só. Preciso, precisamos de pessoas que topem correr o risco.
Outra coisa: Devemos dar fim a todas as coisas que hoje a maioria não tem? Se fizermos isso, a maioria jamais terá direito a estas coisas, pois foram exterminadas. E depois, as coisas de elite e as coisas poulares guardam relações. A arte popular guarda relações com a arte aristocrática.

Função do teatro: Cartática

Brecht: o teatro deve assumir a forma popular. Perceber os problemas gerais, torna-los claros às pessoas. Colocar as pessoas diantes dos problemas delas. Não convencer ninguém.

Vou dizer agora uma coisa que sempre tenho notado quando discutimos: Temos medo de ficar diante de nossas idéia. Então ficamos sempre dizendo umas frases que já estão aí, uns comentários velhos. A gente precisava era de pegar nossas idéias, apresentá-las e colocá-las na posição vertical. Na verdade eu penso muito, tenho muitas idéias. Sou contra muita coisa que existe aí, que se faz em teatro. Mas não to muito convencido do que penso. Por isso eu quero, é preciso discutir. Mas discutir. Discutir.

Obs. Chico falou também sobre a responsabilidade social do gosto.

Vendo as intenções do texto...

Terça-feira, 19-10-76

Quem estava: Clara, Bia, Márcia, Carlos, Felipe e Gustavo.

O pessoal se reuniu para ver as intenções do texto.

Carlos: O loiro poderia ser o Augusto. A peça depende dele. Acho que é o personagem mais importante. Cara forte, capaz de segurar.

Gustavo: Me identifico mais com o Marcos. O homem dos bichos tem que ser uma pessoa bem alta, o Carlão. Dá um toque final no Durvalino, pra ver qual é, se ele vai participar da peça.

Antônio: É bom se dar uma música para cada personagem.

Cena V:

  • Um silêncio no começo. Depois uma gozação de hino na eloqüência do Cautério. A cena torna-se monótona e para ressaltar isso, termina com muito barulho. Cautério entra com roupa de açougueiro porque a alopatia tira sangue. Associação com a medicina atual, medicina comercial.
  • O homeopata deve ser um cara charlatão. Pratica um tipo de medicina pouco usada. Oportunista. Um cara bem doido.
    O hidropata deve ser um matutão, o que se nota pela vestimenta, calça longa, amarrotada, suspensório.

Márcia: Imagino miléssimo moderninho, cabeludo. E o homeopata usa óculos escuros.